Vaticano publica Venite ad me e aponta a liturgia como «coração pulsante» da transmissão da fé
Documento do Dicastério para a Doutrina da Fé, aprovado por Leão XIV, pede celebrações que «falem realmente à mente e ao coração» (n. 92) e um acompanhamento mistagógico das novas gerações.
O Dicastério para a Doutrina da Fé publicou hoje Venite ad me. Considerações sobre a transmissão da fé numa mudança de época. O documento foi aprovado pelo Papa Leão XIV a 21 de agosto e retoma um pedido feito pelo Papa Francisco nos últimos anos do seu pontificado. Perante a «ruptura na transmissão geracional da fé» (n. 47), propõe recentrar a vida da Igreja no kerygma, o primeiro anúncio de Cristo vivo. Entre os caminhos concretos que aponta, a liturgia ocupa lugar de destaque. O texto apresenta a liturgia como «o lugar privilegiado» onde o mistério de Cristo é «celebrado e comunicado sacramentalmente». Chama-lhe também o «coração pulsante da vida eclesial» e rejeita uma visão que a reduza a «mera moldura ritual» (n. 90). Segundo o documento, na liturgia a fé transmite-se «de forma performativa: não se fala apenas de Deus, mas entra-se em relação com Ele». Celebrar significa, por isso, «receber uma fé que foi acreditada, vivida e rezada por outros antes de nós» (n. 90). O Dicastério sublinha igualmente a dimensão comunitária da celebração, que insere o crente num «nós» que o precede e acompanha. Vê nela «um poderoso antídoto» contra o individualismo contemporâneo (n. 91). Invocando o princípio lex orandi, lex credendi, o texto pede que as celebrações não se reduzam a «mera execução formal» e insiste na necessidade de «um cuidado especial com as celebrações e um acompanhamento mistagógico das novas gerações» (n. 92). O documento valoriza também a piedade popular e a diversidade de sensibilidades litúrgicas (nn. 93-94; 111-112), com destaque para a música, apresentada como «instrumento missionário» (n. 99). Recorda o testemunho de Romano Guardini em Monreale, na Sicília, sobre a capacidade de «viver-no-olhar» a celebração (n. 93). Pede aos Pastores que deem a conhecer, em cada diocese, a riqueza do património litúrgico católico (n. 94). Pede ainda atenção às celebrações que marcam as fases da vida, como batismos, matrimónios e funerais, porque nesses momentos muitas pessoas regressam à igreja (nn. 94 e 100). A conclusão escolhe uma imagem da Vigília Pascal como símbolo de todo o texto (nn. 140-142). A partir da chama do círio pascal acendem-se, uma a uma, as velas dos fiéis, ao canto de «A luz de Cristo» (n. 141). Assim se transmite a fé, «como uma chama se acende noutra chama» (n. 27, citando a encíclica Lumen fidei). Na preparação do documento participaram cerca de 70% das Conferências Episcopais de todo o mundo, que enviaram relatórios e testemunhos de conversão. Vários desses testemunhos são reproduzidos no último capítulo, e alguns descrevem reencontros com Cristo na Eucaristia (nn. 128 e 135). Por decisão do Dicastério, Venite ad me não foi apresentado através da Sala de Imprensa da Santa Sé. A sua divulgação foi confiada às Igrejas locais, convidadas a promover a reflexão junto de equipas catequéticas, universidades católicas, institutos de formação e sacerdotes. O documento está disponível em várias línguas no site da Santa Sé.
2026-10-22 00:00:00